Rendimentos: o que os livros de custos raramente explicam
A análise apresentada a seguir foi construída a partir da minha experiência profissional em indústrias de processo. É um tema muito importante, mas raramente abordado com a profundidade necessária nos livros tradicionais de contabilidade de custos.
Diferenças decorrentes de erros de apontamento podem se compensar ao longo do tempo. Se determinado consumo for reportado a maior em um período, provavelmente haverá um apontamento a menor em outro.
Quando esses erros são pontuais e pouco frequentes, o problema pode ser administrável. Entretanto, é comum encontrarmos erros sistemáticos nos apontamentos de consumo e nos reportes de produção. Por trás dessas ocorrências, frequentemente existem falhas de processo, controles inadequados ou problemas de gerenciamento.
Existem, pelo menos, dois tipos de consumo de matérias-primas que podem gerar perdas. Essas perdas precisam ser medidas, monitoradas e analisadas.
1. Processos de mistura simples
O primeiro tipo é o mais simples. Consiste em colocar diferentes matérias-primas em um recipiente e misturá-las, sem que ocorra uma transformação relevante em sua composição.
Processos dessa natureza normalmente não geram grandes diferenças entre a quantidade de matérias-primas que entra no processo e a quantidade de produto acabado a granel obtida ao final.
As principais perdas estão relacionadas:
- ao material que permanece retido nos misturadores, tubulações e recipientes;
- às matérias-primas ou aos produtos retirados para amostragem;
- aos pequenos derramamentos e resíduos gerados durante a movimentação.
A relação entre a quantidade de matérias-primas que entra no processo — input — e a quantidade de produto processado que sai — output — é denominada rendimento, ou yield, em inglês.
Os processos de mistura simples costumam apresentar rendimentos elevados, pois suas perdas são relativamente pequenas. Dependendo das características do processo, podem alcançar índices superiores a 95%.
2. Processos com transformação de matérias-primas
O segundo tipo é mais complexo e ocorre quando existe alguma transformação física ou química das matérias-primas.
Um exemplo simples é a fabricação de bolos. Misturamos os ingredientes, colocamos a massa nas formas e levamos o produto ao forno. Durante o cozimento, ocorre perda de líquido e transformação da massa.
Como exemplo, esse processo poderia gerar uma perda de 10% a 15%. Caso a perda fosse de 15%, o rendimento seria de 85%.
Isso significa que, para cada 100 quilos de massa colocados nas formas para assar, seriam obtidos aproximadamente 85 quilos de bolo processado.
Nas empresas químicas, é muito comum que processos envolvendo reações químicas apresentem perdas relevantes. Nas indústrias alimentícias também ocorrem inúmeras transformações que alteram o peso, o volume, a umidade e a composição dos materiais.
Em uma empresa na qual trabalhei, que realizava o refino de milho para a produção de amido, havia um profissional dedicado quase integralmente à apuração e à análise dos rendimentos obtidos.
Essa dedicação era necessária porque o rendimento podia variar em função de três grandes grupos de fatores:
- qualidade das matérias-primas;
- condições e eficiência dos equipamentos;
- fatores humanos e condições operacionais.
Por isso, a análise do rendimento não pode ser uma atividade restrita à Controladoria ou realizada apenas por meio de planilhas.
Ela exige controles confiáveis, presença no chão de fábrica e trabalho conjunto entre Controladoria, Produção, Engenharia, Qualidade e demais áreas operacionais.
Mais importante do que simplesmente calcular o rendimento é compreender por que ele variou, qual foi o impacto econômico da variação e quais ações precisam ser tomadas para evitar que a perda se repita.
Conclusão
O rendimento é muito mais do que um indicador operacional ou uma fórmula utilizada para comparar input e output. Ele é um instrumento de gestão que ajuda a revelar perdas ocultas, falhas de processo, problemas de qualidade, ineficiências dos equipamentos e oportunidades de redução de custos.
Um rendimento de 85%, por exemplo, não deve ser analisado isoladamente. É necessário entender se esse índice está dentro do padrão esperado, quais fatores provocaram a perda de 15% e qual é o impacto financeiro dessa diferença ao longo do tempo.
Uma análise consistente deve considerar, entre outros aspectos:
- rendimento real versus rendimento padrão;
- perdas por etapa do processo;
- variações por lote, produto, turno ou equipamento;
- custo das matérias-primas perdidas;
- impacto das paradas, retrabalhos e desvios de qualidade;
- evolução histórica dos indicadores;
- planos de ação e responsáveis pela correção.
Quando o rendimento é acompanhado de forma integrada, a empresa deixa de apenas registrar perdas e passa a atuar preventivamente sobre suas causas. O resultado é maior confiabilidade das informações, melhor controle dos custos, redução de desperdícios e decisões mais rápidas e precisas.
A pergunta mais importante não é apenas “qual foi o rendimento?”, mas sim:
O que causou a perda, quanto ela custou e o que será feito para que não volte a acontecer?
Se este tema faz parte dos desafios da sua empresa, entre em contato para conversar sobre controles de custos, análise de perdas, indicadores de rendimento e melhoria da gestão industrial.
Contato:
N


