Liderar exige mais do que saber administrar
Gestão, liderança e ética são temas amplamente discutidos no mundo empresarial. Existem inúmeros livros, cursos e artigos dedicados a cada um deles. Entretanto, muitas vezes são estudados separadamente, quando, na prática, essas três dimensões estão profundamente relacionadas.
Ao longo da minha experiência profissional, convivendo com empresas, executivos, gestores e equipes em diferentes ambientes, pude observar que possuir apenas uma ou duas dessas competências não é suficiente para assegurar uma liderança consistente.
Podemos encontrar excelentes administradores que têm dificuldade para liderar pessoas. Podemos encontrar profissionais extremamente carismáticos que conseguem mobilizar equipes, mas apresentam deficiências importantes de gestão. E existem situações ainda mais preocupantes: gestores competentes e capazes de exercer liderança, mas cujas decisões não são orientadas por princípios éticos.
Por isso, proponho analisar o verdadeiro líder a partir de três pilares: Gestão, Liderança e Ética.
1. Gestão: transformar recursos em resultados
A capacidade de gestão pode ser desenvolvida e aprimorada ao longo da vida profissional. Experiência, formação, leitura, pesquisa, interação com outros profissionais, cursos e, principalmente, a prática contribuem para a evolução do gestor.
Gerir envolve muito mais do que acompanhar tarefas. Significa estabelecer objetivos, planejar, definir prioridades, organizar recursos, estruturar processos, acompanhar indicadores, identificar desvios e tomar decisões.
Em uma empresa, isso se manifesta diariamente em atividades como planejamento, orçamento, custos, produtividade, qualidade, gestão de pessoas, administração de recursos, controles, análise de desempenho e melhoria de processos.
Um bom gestor precisa compreender que as ferramentas gerenciais não constituem um fim em si mesmas. Indicadores, sistemas, reuniões, relatórios e procedimentos somente têm valor quando ajudam a organização a tomar melhores decisões e produzir melhores resultados.
2. Liderança: transformar indivíduos em equipe
Saber administrar, entretanto, não significa necessariamente saber liderar.
Liderança envolve a capacidade de influenciar positivamente as pessoas, estabelecer relações de confiança, comunicar objetivos, ouvir, orientar, desenvolver profissionais e criar condições para que diferentes indivíduos trabalhem em torno de propósitos comuns.
Algumas características pessoais certamente facilitam o exercício da liderança. Entretanto, grande parte das competências necessárias para liderar pode ser desenvolvida por meio da experiência, do aprendizado, do feedback e da reflexão sobre o próprio comportamento.
Aspectos relacionados à inteligência emocional, como autoconsciência, autocontrole, empatia e habilidade de relacionamento, também têm papel relevante na maneira como o líder interage com sua equipe.
Um dos grandes desafios consiste em compreender que um grupo de pessoas não constitui necessariamente uma equipe.
Pessoas podem trabalhar na mesma área, utilizar os mesmos sistemas e responder ao mesmo gestor e, ainda assim, atuar de forma individualizada.
Cabe ao líder criar condições para que competências individuais se transformem em capacidade coletiva.
3. Ética: os limites dentro dos quais os resultados devem ser alcançados
A terceira dimensão é provavelmente aquela que merece a reflexão mais profunda: a ética.
Empresas podem desenvolver códigos de conduta, políticas de compliance, controles internos, canais de denúncia e programas de treinamento. Tudo isso é importante.
Entretanto, nenhum sistema substitui completamente os valores individuais e a responsabilidade pessoal de quem toma decisões.
O verdadeiro teste da ética não ocorre quando fazer o correto é fácil. Ele aparece principalmente quando existem pressões por resultados, conflitos de interesse ou oportunidades de obter vantagens escolhendo caminhos inadequados.
Um líder ético precisa compreender que o resultado alcançado não pode ser analisado separadamente da forma como ele foi obtido.
Uma organização pode apresentar excelentes indicadores durante determinado período e, ao mesmo tempo, estar acumulando riscos enormes se seus resultados dependerem de manipulação de informações, desrespeito às pessoas, favorecimentos, transgressão de controles ou outras condutas incompatíveis com seus princípios.
Competência sem ética também representa um risco
Existe uma questão especialmente importante nesse debate.
Quanto maior a competência de um gestor, maior pode ser sua capacidade de influenciar pessoas, processos e decisões.
Isso significa que competência gerencial e capacidade de liderança, quando desvinculadas da ética, podem se transformar em instrumentos extremamente prejudiciais à própria organização.
Um gestor despreparado pode causar problemas por incompetência. Um gestor altamente competente, mas sem princípios, pode produzir danos muito maiores justamente porque possui conhecimento, autoridade e capacidade de mobilização.
O que acontece quando uma dessas dimensões está ausente?
Analisar separadamente as três dimensões ajuda a compreender alguns problemas bastante comuns nas organizações.
Nenhuma dessas três dimensões consegue compensar permanentemente a ausência das outras.
O verdadeiro líder integra as três dimensões
A liderança consistente surge quando essas três dimensões passam a funcionar conjuntamente.
A Gestão oferece métodos, processos e instrumentos para transformar objetivos em resultados.
A Liderança cria condições para que as pessoas se envolvam, cooperem, desenvolvam suas competências e trabalhem em equipe.
A Ética estabelece os princípios e os limites dentro dos quais decisões e resultados devem ser construídos.
Liderança mobiliza pessoas.
Ética orienta como o poder e a competência devem ser utilizados.
Liderança também se desenvolve
Outro equívoco frequente é acreditar que bons líderes simplesmente nascem prontos.
Evidentemente existem características pessoais que favorecem a liderança. Entretanto, experiência, estudo, autoconhecimento, feedback, mentoring, coaching e convivência com bons líderes podem contribuir significativamente para o desenvolvimento de um gestor.
Talvez uma das fontes mais importantes de aprendizado seja justamente observar a realidade.
Ao longo de uma carreira profissional encontramos líderes extraordinários, líderes medianos e também exemplos de comportamentos que jamais deveríamos reproduzir.
Todos eles podem ensinar.
Os bons líderes mostram práticas que merecem ser incorporadas. Os maus exemplos mostram comportamentos e decisões cujas consequências precisamos compreender para evitar repeti-los.
Três perguntas para quem ocupa uma posição de liderança
O modelo pode também ser utilizado como uma forma simples de autoavaliação.
Consigo planejar, estabelecer prioridades, organizar recursos, acompanhar resultados e tomar decisões?
Minha equipe confia em mim? Consigo desenvolver pessoas, criar cooperação, comunicar objetivos e obter comprometimento?
Continuo respeitando princípios, controles e pessoas mesmo quando existem fortes pressões por resultados?
A Casa da Liderança
Essa integração entre ética, gestão e liderança levou-me também a desenvolver uma representação simples que denominei Casa da Liderança.
O conceito utiliza a imagem de uma casa para mostrar que uma liderança consistente precisa estar sustentada simultaneamente por essas diferentes dimensões.
Assim como uma construção perde estabilidade quando uma de suas estruturas fundamentais apresenta problemas, a liderança também se fragiliza quando gestão, liderança ou ética são negligenciadas.
Conclusão: resultados, pessoas e princípios
O verdadeiro líder não pode ser avaliado exclusivamente pelos resultados financeiros ou operacionais que entrega.
Também precisa ser observado pela forma como desenvolve pessoas, constrói equipes, utiliza sua autoridade e toma decisões.
Gestão, liderança e ética não deveriam ser tratadas como competências independentes. Elas se complementam e, juntas, formam uma base muito mais sólida para o exercício da responsabilidade gerencial.
desenvolver pessoas e preservar princípios.
Organizações que desejam resultados sustentáveis precisam, portanto, desenvolver gestores capazes de integrar essas três dimensões.
E cada profissional que exerce uma posição de liderança deveria, periodicamente, fazer a mesma reflexão:
Como estão hoje a Gestão, a Liderança e a Ética na minha própria atuação?
DRUCKER, Peter F. The Practice of Management. New York: Harper & Brothers, 1954.
GOLEMAN, Daniel. Emotional Intelligence. New York: Bantam Books, 1995.
TREVIÑO, Linda K.; NELSON, Katherine A. Managing Business Ethics: Straight Talk About How to Do It Right. 5. ed. Hoboken: John Wiley & Sons, 2010.
Controladoria | Gestão | Liderança | Ética | Produtividade | Estratégia
Oi.
ResponderExcluirGostei muito do seu blog,parabéns.
Sabia que agora tem um "Portal" só de blogs de qualidade,assim como o seu?
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Até mais