NR-1 e saúde mental: o que muda para as empresas e por que os riscos psicossociais entraram definitivamente na agenda da gestão
A saúde mental deixou de ser apenas uma questão individual ou um tema restrito às áreas de Recursos Humanos. Cada vez mais, ela faz parte da gestão de riscos, da produtividade, da liderança e da sustentabilidade das organizações.
As mudanças relacionadas à NR-1 — Norma Regulamentadora nº 1, especialmente a atenção aos fatores de riscos psicossociais relacionados ao trabalho no gerenciamento de riscos ocupacionais, reforçam essa transformação.
Para empresários, executivos e profissionais de RH, a mensagem é importante: saúde mental no trabalho precisa ser tratada de maneira estruturada, preventiva e integrada à gestão da organização.
O que são riscos psicossociais?
Riscos psicossociais relacionados ao trabalho podem surgir da maneira como o trabalho é organizado, administrado e realizado.
Entre os fatores que merecem atenção estão, por exemplo:
sobrecarga e pressão excessiva;
metas ou exigências incompatíveis com os recursos disponíveis;
jornadas e ritmos inadequados;
conflitos interpessoais;
problemas de comunicação;
falta de clareza sobre responsabilidades;
situações de assédio ou violência;
baixa autonomia;
ausência de suporte adequado;
ambientes organizacionais persistentemente deteriorados.
É importante fazer uma distinção.
Identificar fatores de risco psicossocial não significa diagnosticar individualmente os trabalhadores.
A organização deve analisar aspectos relacionados ao trabalho e ao ambiente organizacional e adotar medidas apropriadas de prevenção e gerenciamento.
NR-1 não deve ser vista apenas como obrigação legal
Um dos riscos para as empresas é transformar o assunto em mais uma tarefa burocrática: preencher formulários, produzir documentos e considerar o problema resolvido.
Essa abordagem perde justamente a maior oportunidade.
Problemas relacionados à saúde mental podem estar associados a absenteísmo, afastamentos, conflitos, rotatividade, perda de produtividade, dificuldades de liderança e deterioração do clima organizacional.
Portanto, prevenir e administrar adequadamente os fatores psicossociais pode trazer benefícios que vão muito além do atendimento a uma exigência regulatória.
Como executivo com longa experiência em gestão financeira e industrial, considero que investir em saúde mental tornou-se também uma questão de gestão empresarial.
Organizações são feitas de pessoas. Um ambiente mais saudável e equilibrado tende a criar condições melhores para desempenho, produtividade, qualidade, retenção de profissionais e, consequentemente, para os próprios indicadores do negócio.
O papel da liderança é fundamental
Não existe programa consistente de saúde mental sem participação da liderança.
Gestores precisam estar preparados para reconhecer sinais de problemas no ambiente de trabalho, melhorar a comunicação, administrar conflitos e encaminhar situações que necessitem de acompanhamento especializado.
Isso não significa transformar gestores em psicólogos.
Significa criar uma organização capaz de identificar problemas, agir preventivamente e saber quando buscar profissionais especializados.
Da reação para a prevenção
Durante muitos anos, a saúde mental nas organizações foi tratada principalmente quando o problema já estava instalado.
O colaborador apresentava dificuldades, era afastado ou procurava espontaneamente atendimento.
A tendência atual é diferente.
O foco passa progressivamente para prevenção, identificação de fatores de risco, orientação, desenvolvimento das lideranças e criação de mecanismos de apoio.
Isso exige uma atuação multidisciplinar.
RH, Segurança e Saúde no Trabalho, Medicina Ocupacional, gestores e profissionais especializados em saúde mental podem ter papéis complementares.
Como uma empresa pode começar?
Não é necessário esperar que ocorram afastamentos ou situações críticas.
O primeiro passo pode ser compreender o ambiente existente e identificar onde estão os principais fatores de atenção.
A partir daí, diferentes ações podem ser consideradas: orientação às lideranças, palestras e workshops, programas preventivos, apoio psicológico, acompanhamento profissional, ações relacionadas ao ambiente organizacional e encaminhamento adequado de situações que demandem atendimento especializado.
O mais importante é evitar soluções genéricas.
Cada organização possui pessoas, cultura, processos, riscos e necessidades diferentes.
Saúde mental, NR-1 e gestão precisam caminhar juntas
A evolução das normas relacionadas aos riscos psicossociais reforça algo que boas organizações já começaram a perceber:
cuidar da saúde mental não é apenas tratar pessoas que adoeceram. É também trabalhar para construir ambientes que reduzam fatores capazes de contribuir para o adoecimento.
E isso exige método, profissionais qualificados e participação efetiva da organização.
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