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quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Liderança na Era da NR-1: o Papel dos Gestores na Prevenção dos Riscos Psicossociais

 

Liderança na Era da NR-1: o Papel dos Gestores na Prevenção dos Riscos Psicossociais

Durante muito tempo, falar em liderança significava discutir motivação, comunicação, delegação, desenvolvimento de equipes e obtenção de resultados.

Esses temas continuam fundamentais. Entretanto, o ambiente empresarial está mudando e a liderança passa a assumir também uma responsabilidade cada vez mais importante na prevenção dos riscos psicossociais relacionados ao trabalho.

Com a evolução da NR-1 e do Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO), fatores relacionados à organização do trabalho ganham maior atenção dentro das empresas.

E aqui surge uma questão importante:

Até que ponto a forma de liderar pode contribuir para aumentar ou reduzir os riscos psicossociais dentro de uma organização?

A resposta merece atenção de empresários, executivos, profissionais de Recursos Humanos e, principalmente, de quem exerce funções de liderança.

Liderança também faz parte do ambiente de trabalho

Quando pensamos em riscos ocupacionais, normalmente lembramos de máquinas, equipamentos, produtos químicos, ruído, temperatura, ergonomia ou acidentes.

Mas o trabalho possui também uma dimensão organizacional e humana.

A maneira como as atividades são planejadas, distribuídas, cobradas e supervisionadas pode influenciar diretamente o ambiente de trabalho.

Entre os fatores que merecem atenção estão:

  • sobrecarga de trabalho;
  • metas incompatíveis com os recursos disponíveis;
  • falta de clareza sobre responsabilidades;
  • comunicação deficiente;
  • conflitos frequentes;
  • baixo nível de autonomia;
  • ausência de apoio da liderança;
  • mudanças organizacionais mal conduzidas;
  • jornadas ou ritmos de trabalho inadequados;
  • situações de desrespeito, constrangimento ou assédio.

Observe que muitos desses fatores possuem uma relação direta ou indireta com a qualidade da gestão e da liderança.

O líder não precisa ser psicólogo

É importante evitar uma interpretação equivocada.

A responsabilidade do gestor não é diagnosticar transtornos psicológicos, realizar avaliações clínicas ou substituir profissionais especializados.

Seu papel é outro.

O líder precisa desenvolver capacidade para perceber sinais de problemas no ambiente de trabalho, organizar adequadamente as atividades, manter canais de comunicação e encaminhar situações que exijam apoio especializado.

Em outras palavras, não se espera que o gestor faça diagnóstico psicológico.

Espera-se que ele saiba liderar pessoas e organizar o trabalho de maneira responsável.

Pressão por resultados não pode substituir gestão

Toda empresa precisa de produtividade, qualidade, prazos, custos competitivos e resultados financeiros.

Cobrar resultados faz parte da responsabilidade de qualquer gestor.

O problema começa quando a cobrança passa a substituir o planejamento.

Metas elevadas sem recursos adequados, prioridades que mudam continuamente, excesso de horas extras, retrabalhos frequentes, processos mal definidos e conflitos entre departamentos podem criar um ambiente permanente de pressão.

Nesse cenário, simplesmente exigir que as pessoas "produzam mais" dificilmente resolverá o problema.

Muitas vezes, o verdadeiro desafio está no próprio sistema de trabalho.

Produtividade sustentável não significa aumentar continuamente a pressão sobre as pessoas. Significa melhorar continuamente o sistema no qual elas trabalham.

Indicadores também podem revelar problemas de liderança

Uma gestão preventiva não deveria depender apenas da percepção subjetiva dos gestores.

Diversos indicadores empresariais podem funcionar como sinais de alerta.

Por exemplo:

  • aumento do absenteísmo;
  • crescimento do turnover;
  • elevação das horas extras;
  • queda de produtividade;
  • aumento de retrabalho;
  • crescimento das reclamações internas;
  • conflitos recorrentes;
  • aumento de afastamentos;
  • acidentes ou quase acidentes;
  • deterioração dos indicadores de qualidade.

Nenhum desses indicadores, isoladamente, prova a existência de um risco psicossocial.

Entretanto, mudanças significativas ou recorrentes podem indicar que algo precisa ser investigado.

É justamente nesse ponto que liderança, Recursos Humanos, Segurança do Trabalho e profissionais especializados precisam atuar de maneira integrada.

Dez perguntas que todo líder deveria fazer

Independentemente das exigências legais, uma boa liderança deveria periodicamente fazer uma avaliação simples do ambiente que está criando para sua equipe.

  1. Minha equipe conhece claramente suas prioridades e responsabilidades?
  2. As metas estabelecidas são compatíveis com os recursos, pessoas e prazos disponíveis?
  3. Os colaboradores possuem autonomia adequada para executar suas atividades?
  4. As pessoas conseguem conversar comigo quando encontram dificuldades?
  5. Os erros são utilizados para aprendizado ou apenas para procurar culpados?
  6. Reconheço adequadamente as contribuições da equipe?
  7. Existem conflitos recorrentes que estou deixando de enfrentar?
  8. A carga de trabalho está distribuída de maneira razoavelmente equilibrada?
  9. As mudanças são explicadas e conduzidas de forma adequada?
  10. Meu comportamento contribui para um ambiente de respeito, confiança e cooperação?

Responder sinceramente a essas perguntas pode ser muito mais útil do que simplesmente repetir conceitos abstratos sobre liderança.

A prevenção começa na organização do trabalho

Um dos aspectos mais relevantes da discussão sobre riscos psicossociais é compreender que nem todos os problemas podem ser tratados exclusivamente no nível individual.

Em determinadas situações, a solução não está em pedir ao trabalhador que desenvolva maior resistência à pressão.

Pode estar em revisar:

  • processos;
  • dimensionamento das equipes;
  • metas;
  • responsabilidades;
  • fluxos de comunicação;
  • prioridades;
  • jornadas;
  • formas de supervisão;
  • critérios de avaliação;
  • práticas de liderança.

Essa mudança de perspectiva é extremamente importante.

Em vez de perguntar apenas:

"Como tornar as pessoas mais resistentes à pressão?"

talvez a organização também deva perguntar:

"Por que nosso sistema de trabalho está produzindo tanta pressão?"

NR-1 não deveria ser tratada apenas como obrigação documental

Existe sempre o risco de transformar novas exigências em formulários, planilhas, relatórios e procedimentos destinados apenas ao cumprimento formal da legislação.

Seria uma oportunidade perdida.

A discussão sobre riscos psicossociais pode estimular as empresas a analisar com maior profundidade a maneira como o trabalho está sendo organizado.

Isso envolve questões que interessam diretamente à gestão:

  • produtividade;
  • qualidade;
  • absenteísmo;
  • turnover;
  • engajamento;
  • segurança;
  • retenção de profissionais;
  • eficiência dos processos;
  • desempenho das lideranças.

Portanto, existe uma oportunidade de transformar uma necessidade de conformidade em um verdadeiro instrumento de melhoria da gestão.

Liderança eficaz é também liderança responsável

Tenho defendido há muitos anos que liderança não pode ser avaliada apenas pelos resultados obtidos no curto prazo.

Um gestor pode alcançar metas durante algum tempo utilizando pressão excessiva, centralização, medo ou desgaste contínuo da equipe.

Isso não significa necessariamente que exista uma liderança eficaz.

A verdadeira qualidade da liderança aparece quando os resultados conseguem ser sustentados juntamente com:

  • desenvolvimento das pessoas;
  • melhoria dos processos;
  • formação de sucessores;
  • ambiente de respeito;
  • aprendizado organizacional;
  • produtividade sustentável.

A crescente atenção aos riscos psicossociais apenas reforça algo que boas organizações já deveriam saber:

A forma como uma empresa lidera suas pessoas também faz parte da forma como ela administra seus riscos.

Conclusão

A evolução da NR-1 representa uma oportunidade importante para ampliar a discussão sobre liderança dentro das organizações.

Não se trata de transformar gestores em especialistas em saúde mental.

Trata-se de reconhecer que decisões gerenciais, organização do trabalho e comportamento das lideranças influenciam diretamente o ambiente no qual as pessoas trabalham.

Empresas que compreenderem essa relação poderão ir além da simples conformidade.

Poderão utilizar essa discussão para melhorar processos, desenvolver lideranças, reduzir riscos e construir ambientes capazes de combinar resultados, produtividade e respeito às pessoas.

E talvez essa seja uma das principais evoluções que a liderança empresarial precisa incorporar nos próximos anos.


Leia também no Blog do Professor Ari

► A Casa da Liderança
Uma visão integrada das competências e fundamentos que sustentam uma liderança eficaz.

► Gestão, Liderança e Ética
Reflexões sobre a relação entre resultados, comportamento gerencial e responsabilidade dos líderes.

► Qualidades do Líder – Doze Competências Essenciais
Competências importantes para quem exerce ou pretende exercer funções de liderança.


Referências

BRASIL. Ministério do Trabalho e Emprego. Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) – Disposições Gerais e Gerenciamento de Riscos Ocupacionais.

BRASIL. Ministério do Trabalho e Emprego. Guia de Informações sobre os Fatores de Riscos Psicossociais Relacionados ao Trabalho.

FUNDACENTRO. Publicações e materiais técnicos relacionados à saúde e segurança no trabalho e aos fatores psicossociais relacionados ao trabalho.

INTERNATIONAL ORGANIZATION FOR STANDARDIZATION. ISO 45003:2021 – Occupational health and safety management — Psychological health and safety at work — Guidelines for managing psychosocial risks. Geneva: ISO, 2021.


Ariovaldo Lopes da Silva
Economista, Mestre em Ciências Contábeis e Financeiras, consultor, professor e executivo com experiência em Controladoria, Finanças, Custos, Produtividade e Gestão.
Alpha Premium Consultoria e Treinamentos

Apoio especializado em saúde mental e riscos psicossociais

A Clínica Reviver conta com profissionais de Psicologia e experiência no atendimento e acompanhamento em saúde mental, podendo apoiar empresas e profissionais em iniciativas relacionadas ao bem-estar psicológico, prevenção e orientação sobre riscos psicossociais no ambiente de trabalho.

No contexto da NR-1, a integração entre gestão, liderança, Recursos Humanos, Segurança do Trabalho e profissionais de Psicologia pode contribuir para ações preventivas mais consistentes e adequadas à realidade de cada organização.

Clínica Reviver – Psicologia e Saúde Mental
Atendimento a pessoas e organizações.

Rua Salém Bechara, 140 – Centro – Osasco/SP | (11) 99844-9595

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