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domingo, 20 de setembro de 2026

ÉTICA E INTEGRIDADE - Estudo de Caso Alpha Premium – Quando a Controladoria Precisa Dizer Não





Há situações em que o verdadeiro papel da Controladoria não aparece no fechamento contábil, no orçamento ou na análise da DRE.

Ele aparece quando alguém precisa tomar uma decisão.

E, principalmente, quando a decisão tecnicamente correta contraria interesses ou orientações vindas dos níveis mais altos da organização.

Este estudo de caso relata uma situação real vivenciada por mim como Controller de uma unidade de negócio e Plant Controller de uma multinacional, pouco tempo depois de a companhia em que eu trabalhava ter sido adquirida por outro grupo multinacional.

Por razões de confidencialidade, empresas e profissionais envolvidos não são identificados.


1. O contexto

Cerca de dois meses depois da integração das empresas, o gerente responsável pelas áreas de Meio Ambiente e Engenharia me procurou com uma dúvida aparentemente simples:

Deveríamos dispensar o processo normal de cotação quando determinado fornecedor fosse indicado diretamente pelo Diretor-Presidente?

A pergunta já revelava um problema maior.

A empresa possuía como procedimento a obtenção de pelo menos três cotações para determinadas contratações. Além disso, a unidade já utilizava um prestador de serviços conhecido, que apresentava preços considerados razoáveis e possuía histórico satisfatório de atendimento.

Naquele momento, porém, seria necessário contratar um profissional especializado para auxiliar na regularização de documentação da unidade junto à prefeitura.

Foi então que surgiu uma situação excepcional.

Um prestador procurou o gerente afirmando que realizaria o trabalho porque já atendia a matriz e havia sido indicado pela Presidência.


2. O primeiro sinal de alerta

Perguntei imediatamente:

Qual é o preço do serviço?

A resposta foi surpreendente.

Segundo o gerente, aquele profissional normalmente não apresentava orçamento antecipadamente. Executava o trabalho e posteriormente encaminhava a cobrança.

Essa prática contrariava princípios elementares de controle.

Uma empresa não deveria assumir um compromisso sem conhecer previamente, salvo situações excepcionais devidamente justificadas:

  • o escopo do serviço;

  • o preço;

  • as condições comerciais;

  • as responsabilidades das partes;

  • e os critérios utilizados para selecionar o fornecedor.

A indicação de um executivo, independentemente de sua posição hierárquica, não deveria substituir os controles internos da organização.

Minha orientação foi objetiva:

Sem orçamento, não haveria contratação.


3. A resistência

Houve resistência do fornecedor indicado, mas insistimos na necessidade de formalização da proposta.

Finalmente, o orçamento foi apresentado.

E então apareceu o verdadeiro problema.

O fornecedor que já atendia satisfatoriamente a unidade apresentou proposta próxima de:

R$ 2.500

O fornecedor indicado apresentou proposta de aproximadamente:

R$ 7.500

Ou seja, aproximadamente três vezes o valor da alternativa disponível.

AlternativaValor aproximadoReferência
Prestador já conhecido pela unidadeR$ 2.500100%
Prestador indicadoR$ 7.500300%
DiferençaR$ 5.000+200%

O gerente então me perguntou:

“Qual deles devemos contratar?”

Minha resposta foi igualmente simples:

Se estamos seguros da capacidade técnica e da qualidade do fornecedor de menor preço, não existe justificativa econômica para pagar três vezes mais pelo mesmo serviço.


4. A decisão do Controller

Autorizei a contratação da proposta economicamente mais vantajosa.

Mas tomei uma providência adicional que considero fundamental.

Documentei a decisão.

Solicitei as propostas, identifiquei a alternativa escolhida, assinei, datei e registrei formalmente a aprovação e as condições apresentadas pelos demais fornecedores.

Isso não era burocracia.

Era controle interno, rastreabilidade e proteção da organização e de seus gestores.

Um Controller não deve apenas participar de decisões importantes.

Precisa assegurar que decisões relevantes possam posteriormente responder a perguntas como:

  • Quem decidiu?

  • Com base em quais informações?

  • Quais alternativas existiam?

  • Qual era a diferença econômica?

  • O procedimento interno foi respeitado?

  • Existia justificativa técnica para a escolha?

Aquilo que não está adequadamente documentado torna-se muito mais difícil de defender, auditar e explicar posteriormente.


5. O resultado

O fornecedor de menor preço foi contratado.

O serviço foi executado adequadamente e, portanto, a decisão mostrou-se correta também sob o ponto de vista operacional.

A empresa economizou aproximadamente R$ 5.000 naquela contratação, cerca de 67% em relação ao valor que seria pago ao fornecedor indicado.

Mas esse não foi o principal resultado do episódio.

O mais importante foi preservar um princípio:

A autoridade hierárquica não deveria eliminar os mecanismos de controle da empresa.


6. Quando a governança é realmente testada

Alguns dias depois, o Diretor-Presidente tomou conhecimento de que o fornecedor por ele indicado não havia sido contratado.

Sua reação foi bastante negativa.

Ele entrou em contato com o Diretor de Operações querendo saber por que sua indicação não havia sido seguida.

Havia uma resposta técnica simples:

o fornecedor contratado apresentou preço equivalente a aproximadamente um terço da proposta concorrente e possuía capacidade comprovada para executar o serviço.

Entretanto, a questão acabou sendo atribuída diretamente à minha decisão como Controller.

Naturalmente, isso produziu desgaste profissional e resistência posterior.

Esse é justamente um dos aspectos mais importantes deste caso.

É relativamente fácil defender ética, compliance e governança quando esses princípios não contrariam interesses.

O verdadeiro teste ocorre quando respeitar os controles tem algum custo pessoal ou político para quem toma a decisão.


7. O Controller não pode ser apenas o “guardião dos números”

A função do Controller vai muito além de preparar relatórios.

Ele deve contribuir para que os recursos da organização sejam utilizados de maneira econômica, transparente, rastreável e coerente com as políticas estabelecidas.

Isso exige independência profissional.

Não significa que o Controller tenha autoridade absoluta sobre todas as decisões. Evidentemente, não tem.

Significa que deve possuir independência suficiente para:

  • apresentar os fatos;

  • quantificar impactos;

  • questionar exceções;

  • exigir documentação;

  • preservar evidências;

  • apontar riscos;

  • e registrar adequadamente decisões que se afastem dos procedimentos estabelecidos.

Existe uma diferença enorme entre obedecer à estrutura hierárquica e abandonar a responsabilidade profissional.


8. Uma questão de controles internos

O caso também permite uma leitura bastante objetiva sob a perspectiva dos controles internos.

Situação encontrada

Indicação hierárquica → tentativa de contratação direta → ausência de orçamento prévio → risco de pagamento sem comparação de mercado

Processo adotado

Indicação → exigência de proposta formal → comparação → avaliação técnica → decisão → aprovação documentada → execução → evidência

A segunda sequência é claramente mais robusta.

O objetivo do controle não é impedir a administração de tomar decisões.

É permitir que as decisões sejam tomadas com informação, transparência e responsabilidade.


9. E se houvesse uma justificativa para pagar três vezes mais?

Essa é uma pergunta importante.

Nem sempre o menor preço representa a melhor contratação.

Um fornecedor mais caro poderia ser escolhido se existissem razões objetivas, como:

  • tecnologia diferenciada;

  • menor prazo;

  • experiência específica;

  • menor risco operacional;

  • garantia superior;

  • propriedade intelectual;

  • exclusividade;

  • qualidade comprovadamente superior;

  • ou outra vantagem econômica ou estratégica relevante.

Nesse caso, porém, a exceção deveria ser justificada e documentada.

O problema não está necessariamente em contratar o fornecedor mais caro.

O problema está em contratar o fornecedor mais caro sem saber quanto ele cobrará, sem comparação e sem justificativa objetiva para a exceção.


10. Antes e depois do controle

Sem um controle adequadoCom um controle adequado
Indicação pessoalCritério objetivo
Serviço sem preço previamente definidoOrçamento formal
Ausência de comparaçãoComparação de propostas
Decisão baseada em hierarquiaDecisão baseada em fatos
Baixa rastreabilidadeEvidências documentadas
Maior risco de conflito de interessesMaior transparência
Dificuldade de auditoria posteriorProcesso auditável
Exposição dos gestoresResponsabilidades documentadas

11. A principal lição deste caso

Durante minha carreira em Controladoria, aprendi que ética não pode existir apenas no Código de Conduta colocado na parede ou publicado na intranet.

Ela precisa aparecer nos processos.

E aparece principalmente nas decisões pequenas e aparentemente rotineiras.

Uma contratação de R$ 7.500 provavelmente não alteraria o resultado de uma multinacional.

Mas o princípio envolvido poderia alterar muita coisa.

Se uma exceção é aceita simplesmente porque alguém hierarquicamente poderoso determinou, cria-se um precedente.

Depois vem outra exceção.

E outra.

Até que aquilo que deveria ser excepcional passe a fazer parte da cultura da organização.

Por isso, uma das responsabilidades mais importantes da Controladoria é ajudar a construir um ambiente em que boas práticas não dependam de quem está solicitando a despesa.

Conclusão

Integridade não é aquilo que uma organização declara. É aquilo que ela aceita — ou não aceita — quando ninguém gostaria de contrariar quem está no poder.

O Controller precisa ter competência técnica para compreender os números, mas também independência profissional para apresentá-los quando eles incomodam.

Nesse episódio, a questão não era simplesmente economizar R$ 5.000.

Era assegurar que uma indicação hierárquica não substituísse um processo de controle.

Essa talvez seja uma das melhores definições práticas do papel da Controladoria:

proteger o resultado, os processos e a própria organização por meio de informação confiável, controles adequados, documentação e independência profissional.


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