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sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Aprofundamento ao Estudo do Balanço Patrimonial — Balance Sheet


 Aprofundamento ao Estudo do Balanço Patrimonial — Balance Sheet

Qualidade dos ativos, obrigações, valor e interpretação dos indicadores

Professor Ari | Alpha Premium Consultoria e Treinamentos

Uma empresa pode apresentar lucro e enfrentar dificuldades para pagar seus compromissos. Pode aumentar o faturamento enquanto acumula estoques sem giro e recebíveis de recuperação duvidosa. Pode, ainda, mostrar patrimônio líquido positivo sustentado por ativos cuja realização depende de projeções excessivamente otimistas.

Por isso, analisar o balanço patrimonial exige investigar a qualidade dos valores apresentados, os critérios de reconhecimento e mensuração e sua relação com a operação e o caixa.

Na análise do P&L — demonstração do resultado — examinamos a formação do lucro. No balanço patrimonial, aprofundamos outra questão: quais recursos sustentam esse resultado, como foram financiados e quais riscos permanecem na estrutura patrimonial?


1. A base conceitual: o que os números representam?

Hendriksen e Van Breda, em Teoria da Contabilidade, constituem uma referência fundamental para estudar os conceitos e os problemas de mensuração que sustentam as demonstrações financeiras. A obra oferece uma base para examinar criticamente o significado dos saldos, além de sua classificação contábil.

Essa perspectiva orienta três perguntas:

  • O elemento deveria ser reconhecido?
  • Qual base de mensuração representa adequadamente sua natureza?
  • A informação permite ao usuário compreender a posição patrimonial e tomar decisões?

Sérgio de Iudícibus e Ricardo Pereira Rios também oferecem uma referência relevante para aproximar a teoria contábil dos desafios atuais. Stephen Penman acrescenta a conexão entre análise das demonstrações, projeções e avaliação empresarial. Essas obras compõem a base bibliográfica do estudo; os requisitos normativos apresentados adiante são fundamentados nas normas do IASB. 

Na Estrutura Conceitual das IFRS, ativo é um recurso econômico presente controlado pela entidade como resultado de eventos passados. Passivo é uma obrigação presente de transferir um recurso econômico, também decorrente de eventos passados. Patrimônio líquido corresponde à participação residual nos ativos após a dedução dos passivos.

A definição de ativo, entretanto, não assegura automaticamente seu reconhecimento: é necessário avaliar a informação produzida e os requisitos da norma aplicável. Prudência significa cautela em situações de incerteza, preservando a neutralidade; não autoriza aumentar passivos ou reduzir ativos arbitrariamente. 

Na prática gerencial, isso conduz a uma distinção essencial:

Ter um saldo registrado não significa ter dinheiro disponível, recuperação assegurada ou capacidade produtiva efetiva.


2. O balanço deve ser analisado em movimento

O balanço apresenta a posição patrimonial em uma data. Uma análise aprofundada precisa explicar como essa posição foi formada.

Recomendo acompanhar, mensalmente:

Comparação

O que permite investigar

Mês atual × mês anterior

Movimentações recentes e desvios operacionais

Mês atual × mesmo mês do ano anterior

Sazonalidade e mudanças estruturais

Realizado × balanço orçado

Efeitos das decisões sobre capital de giro, investimentos e financiamento

Evolução dos últimos 12 meses

Tendências que um fechamento isolado pode esconder

Consolidado × unidades e empresas

Concentração de riscos e diferenças de desempenho

A análise vertical identifica o peso de cada conta dentro de uma base: estoques sobre ativo total, por exemplo.

A análise horizontal acompanha sua evolução. Para uma base inicial positiva:

Variação percentual = (saldo atual ÷ saldo anterior − 1) × 100

Quando o saldo inicial é zero, negativo ou muito pequeno, a variação percentual pode ser pouco informativa. Nesses casos, a movimentação em reais e sua explicação são mais úteis.

Uma conta que cresce merece uma justificativa econômica. Se as vendas aumentaram 8% e os recebíveis cresceram 35%, devemos investigar prazos, inadimplência, concentração, disputas comerciais e alterações no reconhecimento da receita.


3. Caixa e aplicações: quanto está efetivamente disponível?

A IAS 7 caracteriza equivalentes de caixa como aplicações de curto prazo, altamente líquidas, conversíveis em montantes conhecidos e sujeitas a risco insignificante de mudança de valor. Em geral, possuem vencimento de até três meses a partir da aquisição. 

A análise gerencial deve separar:

Grupo

Questão central

Caixa e bancos disponíveis

Quanto pode ser utilizado imediatamente?

Aplicações financeiras

Qual o prazo, o risco e a possibilidade de resgate?

Recursos vinculados ou restritos

Podem financiar a operação corrente?

Caixa em outras empresas do grupo

Há limitações para sua transferência?

Saldos em moeda estrangeira

Qual a exposição cambial e sua finalidade?

Caixa elevado deve ser interpretado junto com dívida, vencimentos e restrições.

Uma empresa com R$ 10 milhões em disponibilidades e R$ 12 milhões de dívida vencendo em 30 dias apresenta uma situação diferente daquela com o mesmo caixa e amortizações distribuídas por cinco anos.

Também precisamos verificar se o saldo do fechamento representa a rotina. Recebimentos antecipados, postergação de pagamentos ou contratação de empréstimos próximos à data do balanço podem alterar temporariamente os indicadores.


4. Contas a receber: qualidade da receita convertida em direitos

Contas a receber merecem abertura por cliente, unidade de negócios, mercado interno, exportação, moeda, vencimento e situação de cobrança.

A IFRS 9 utiliza o modelo de perdas de crédito esperadas para os instrumentos abrangidos. A avaliação considera informações históricas, condições atuais e perspectivas econômicas razoáveis e sustentáveis. Para recebíveis comerciais sem componente significativo de financiamento, a abordagem simplificada exige perdas esperadas ao longo da vida do recebível. Não é necessário esperar a inadimplência ocorrer para reconhecer a perda. 

Um relatório gerencial deve mostrar:

Dimensão

Análise necessária

Aging

Valores a vencer e vencidos por faixa

Concentração

Dependência dos maiores clientes

Recuperação

Recebimentos posteriores e acordos cumpridos

Disputas

Devoluções, qualidade, preços e documentação

Garantias

Validade, cobertura e possibilidade de execução

Perdas esperadas

Premissas, segmentação e evolução

Cessões de recebíveis

Condições contratuais, riscos e obrigações remanescentes

Não basta afirmar que “o cliente sempre pagou”. É necessário avaliar se sua capacidade financeira, seu comportamento e o ambiente econômico continuam compatíveis com essa conclusão.

Receita reconhecida precisa ser acompanhada até sua conversão em caixa.


5. Estoques: investimento operacional ou capital imobilizado?

A IAS 2 determina, como regra geral, a mensuração dos estoques pelo menor entre custo e valor realizável líquido. Este último corresponde ao preço estimado de venda no curso normal dos negócios, deduzido dos custos estimados de conclusão e dos gastos necessários à venda.

A alocação dos custos fixos de produção considera a capacidade normal. Custos de ociosidade não alocados e desperdícios anormais não devem elevar artificialmente os estoques. Reduções ao valor realizável líquido são reconhecidas como despesa; sua reversão é limitada à redução anteriormente reconhecida. 

Na indústria, a análise precisa chegar ao item:

  • Matérias-primas sem previsão de utilização.
  • Componentes vinculados a produtos descontinuados.
  • Produtos em elaboração parados entre operações.
  • Produtos acabados sem pedidos ou com demanda reduzida.
  • Materiais rejeitados, bloqueados ou sujeitos a retrabalho.
  • Diferenças entre saldo físico e saldo contábil.
  • Custos incompatíveis com rendimento, perdas e processo real.

Inventário físico confirma existência; não confirma recuperabilidade.

Uma peça pode estar corretamente contada e não possuir utilização econômica. Da mesma forma, um produto pode ter mercado, mas exigir desconto, retrabalho ou gastos adicionais que reduzam sua recuperação.

O controle deve conectar estoque, engenharia, planejamento, produção, qualidade, vendas e controladoria.


6. Imobilizado: existência, utilização e retorno

A IAS 16 estabelece critérios para reconhecimento e mensuração do imobilizado. O custo inclui gastos diretamente atribuíveis à colocação do ativo no local e nas condições necessárias ao funcionamento pretendido. Componentes significativos com diferentes padrões de consumo podem exigir depreciação separada. Vida útil, valor residual e método precisam ser revisados conforme os requisitos da norma. 

Na análise gerencial, o cadastro patrimonial deve conversar com o chão de fábrica:

Aspecto

Pergunta gerencial

Existência e localização

O equipamento está identificado e disponível?

Utilização

Está operando, ocioso ou desativado?

Produtividade

Entrega capacidade, qualidade e rendimento esperados?

Manutenção

Seu custo compromete a viabilidade econômica?

Investimento em andamento

Qual o prazo para entrar em operação?

Retorno

O benefício realizado corresponde ao projeto aprovado?

Uma máquina totalmente depreciada pode continuar produtiva. Uma máquina recente pode ter perdido utilidade econômica. Portanto, valor contábil, condição técnica e capacidade de geração de resultados devem ser examinados conjuntamente.

Projetos em andamento também merecem atenção: investimentos paralisados podem consumir recursos durante meses sem produzir o retorno previsto.


7. Impairment: o ativo ainda é recuperável?

A IAS 36 exige reconhecer perda quando o valor contábil excede o valor recuperável.

Valor recuperável = maior entre valor em uso e valor justo menos custos de alienação.

O valor em uso considera fluxos de caixa futuros descontados. Quando o ativo não gera entradas suficientemente independentes, avalia-se a unidade geradora de caixa — UGC.

Goodwill, intangíveis de vida útil indefinida e intangíveis ainda indisponíveis para uso exigem teste anual, além da avaliação diante de indícios. Outros ativos abrangidos são testados quando existem indícios. Perdas de goodwill não podem ser revertidas; outras reversões estão sujeitas a limites. Recebíveis e estoques seguem seus próprios modelos. 

Exemplo hipotético: uma UGC possui valor contábil de R$ 8 milhões, valor em uso de R$ 6,5 milhões e valor justo menos custos de alienação de R$ 6 milhões. O valor recuperável é R$ 6,5 milhões; a perda é R$ 1,5 milhão.

Gerencialmente, o teste deve confrontar premissas com evidências: demanda, margens, capacidade, investimentos necessários e desempenho anterior.

Uma projeção otimista não corrige uma operação que perdeu capacidade de gerar caixa.


8. Fair value: valor justo e julgamento na mensuração

A IFRS 13 define valor justo como o preço de saída em uma transação ordenada entre participantes do mercado na data de mensuração. A norma orienta como mensurar; outras normas determinam quando utilizar essa base.

Sua hierarquia prioriza os dados utilizados:

Nível

Característica

1

Preços cotados, sem ajuste, para itens idênticos em mercados ativos

2

Outros dados observáveis, direta ou indiretamente

3

Dados não observáveis relevantes para a mensuração

A classificação depende do dado de menor nível que seja significativo para a mensuração como um todo. 

Para avaliar um saldo mensurado a valor justo, devemos perguntar:

  • Qual mercado e qual técnica foram utilizados?
  • Quais premissas explicam o resultado?
  • Quanto depende de dados observáveis?
  • Qual a sensibilidade a preços, taxas e cenários?
  • O ganho representa caixa realizado ou mudança de mensuração?

Valor justo, valor em uso, valor realizável líquido e preço de venda forçada são conceitos diferentes.

Sua utilização exige compreender a finalidade da mensuração e os riscos que permanecem no ativo.


9. Intangíveis e goodwill: valor econômico e reconhecimento contábil

A IAS 38 exige identificar o intangível e atender aos critérios de reconhecimento. Gastos de pesquisa são despesas. Na fase de desenvolvimento, a capitalização depende da demonstração conjunta de:

  1. Viabilidade técnica.
  2. Intenção de concluir.
  3. Capacidade de usar ou vender.
  4. Benefícios econômicos futuros prováveis.
  5. Recursos adequados para concluir.
  6. Mensuração confiável dos gastos atribuíveis.

Marcas e goodwill gerados internamente não são reconhecidos como ativos. Intangíveis de vida finita são amortizados; os de vida indefinida não são amortizados, mas exigem avaliação de recuperabilidade. 

Essa distinção é especialmente relevante em projetos de software, automação e inteligência artificial.

A aprovação de um projeto não basta para reconhecer um ativo. É necessário documentar a fase, os critérios atendidos, os gastos elegíveis e a capacidade de utilização.

Uma empresa pode possuir valor econômico importante que não aparece integralmente no patrimônio líquido contábil. Por isso, balanço patrimonial e valuation cumprem funções distintas.


10. Provisões: reconhecer obrigações com critérios

Pela IAS 37, provisão é um passivo de prazo ou valor incerto. Seu reconhecimento exige, conjuntamente:

  • Obrigação presente, legal ou não formalizada, decorrente de evento passado.
  • Saída provável de recursos.
  • Estimativa confiável.

A mensuração utiliza a melhor estimativa; quando o efeito temporal é material, considera-se desconto. Provisões devem ser revisadas.

Situação

Tratamento básico

Obrigação presente, saída provável e estimativa confiável

Reconhecer provisão

Obrigação possível, ou presente sem saída provável

Divulgar passivo contingente, salvo possibilidade remota

Saída remota

Em regra, não reconhecer nem divulgar

Perdas operacionais futuras não justificam provisão. Contratos onerosos podem exigir reconhecimento. Reestruturações dependem de critérios específicos, incluindo obrigação não formalizada; intenção gerencial isolada não basta. Ativos contingentes não são reconhecidos até a entrada tornar-se praticamente certa. 

O controle gerencial deve registrar processo, fundamento, exposição, estimativa, responsável e movimentação.

Exemplo hipotético: reclamações recorrentes de garantia devem ser analisadas com histórico de falhas, custos e condições dos produtos vendidos.

Provisões não podem funcionar como mecanismo para deslocar resultados entre períodos. Também é necessário distinguir provisões da IAS 37, perdas de crédito e ajustes de estoques.


11. Tributos diferidos: benefício contábil e possibilidade de utilização

A IAS 12 trata de tributos sobre o lucro, incluindo diferenças temporárias entre bases fiscais e valores contábeis. Ativos fiscais diferidos dependem da probabilidade de existência de lucro tributável que permita sua utilização, observadas as condições da norma. Histórico recente de prejuízos exige evidências convincentes para sustentar o reconhecimento. 

A análise deve examinar:

Questão

Evidência necessária

Origem

Diferenças temporárias, prejuízos fiscais ou créditos

Utilização

Projeções de lucro tributável e reversões pertinentes

Prazo

Cronograma compatível com as condições aplicáveis

Histórico

Aderência entre previsões anteriores e resultados

Sensibilidade

Consequências de margens e volumes menores

Ativo fiscal diferido não equivale a caixa disponível.

Uma projeção deve explicar como a empresa alcançará os resultados necessários: volume, preços, margens, despesas e capacidade operacional.


12. Dívidas, arrendamentos e obrigações operacionais

A dívida precisa ser aberta por credor, vencimento, moeda, indexador, taxa, garantias e cláusulas contratuais.

Na classificação entre circulante e não circulante, é relevante o direito existente na data do balanço de postergar a liquidação por pelo menos 12 meses. Covenants exigíveis nessa data podem afetar a classificação; condições exigíveis apenas posteriormente demandam análise e divulgações específicas. 

A IFRS 16 exige, para arrendatários, em geral, o reconhecimento de ativo de direito de uso e passivo de arrendamento, com exceções para contratos de curto prazo e ativos de baixo valor. Esse tratamento afeta ativos, passivos e indicadores. 

Além dos empréstimos, devemos investigar fornecedores vencidos, obrigações trabalhistas, tributos, adiantamentos de clientes e compromissos de investimento.

Prazo maior com fornecedores pode representar negociação eficiente ou dificuldade de pagamento. A interpretação depende da situação contratual e operacional.


13. Patrimônio líquido: composição e qualidade

O patrimônio líquido deve ser analisado por capital, reservas, resultados acumulados, ajustes de avaliação e demais componentes pertinentes.

As perguntas gerenciais incluem:

  • O crescimento decorreu de lucros, aportes ou ajustes de mensuração?
  • Os dividendos foram compatíveis com o caixa e os investimentos necessários?
  • Os ativos que sustentam o patrimônio são recuperáveis?
  • Há dependência de suporte dos acionistas?
  • As transações com partes relacionadas estão claramente identificadas?
  • O retorno decorre da operação ou de elevada alavancagem?

Patrimônio líquido positivo não assegura liquidez. Seu valor depende também da qualidade dos ativos e da integralidade das obrigações reconhecidas.


14. Índices financeiros: como calcular e interpretar

Os índices organizam a análise, mas não substituem o exame das contas.

Nas fórmulas:

AC: ativo circulante; PC: passivo circulante; PNC: passivo não circulante; PL: patrimônio líquido; RLP: realizável a longo prazo.

14.1 Liquidez e estrutura de capital

Indicador

Fórmula

Como interpretar

Liquidez corrente

AC ÷ PC

Cobertura contábil das obrigações de curto prazo

Liquidez seca

(AC − estoques) ÷ PC

Cobertura sem depender dos estoques

Liquidez imediata

Caixa e equivalentes disponíveis ÷ PC

Parcela coberta por recursos imediatamente disponíveis

Liquidez geral

(AC + RLP) ÷ (PC + PNC)

Relação ampla entre direitos realizáveis e obrigações

Capital de giro líquido

AC − PC

Folga ou déficit entre saldos circulantes

Endividamento geral

(PC + PNC) ÷ ativo total

Parcela dos ativos financiada por obrigações

Capital de terceiros sobre PL

(PC + PNC) ÷ PL

Relação entre financiamento de terceiros e capital próprio

Composição do endividamento

PC ÷ (PC + PNC)

Concentração das obrigações no curto prazo

A liquidez seca possui variantes. Algumas análises também excluem despesas antecipadas e outros itens de baixa liquidez. A fórmula adotada deve ser informada e aplicada consistentemente.

Liquidez corrente superior a 1 não garante pagamento pontual. Estoques sem giro, clientes em atraso e desencontro de vencimentos podem coexistir com um índice aparentemente confortável.

Com PL negativo ou próximo de zero, índices que o utilizam como denominador podem perder utilidade econômica.

14.2 Capital de giro e ciclo financeiro

Indicador

Fórmula básica

Interpretação

Prazo médio de recebimento

Recebíveis comerciais médios ÷ vendas a prazo × dias

Tempo médio para receber

Prazo médio de estocagem

Estoques médios ÷ custo das vendas × dias

Tempo de permanência dos estoques

Prazo médio de pagamento

Fornecedores médios ÷ compras a prazo × dias

Tempo médio para pagar fornecedores

Ciclo operacional

Prazo de estocagem + prazo de recebimento

Tempo entre estoque e recebimento

Ciclo financeiro

Ciclo operacional − prazo de pagamento

Período de financiamento da operação

Os saldos e fluxos precisam ter bases comparáveis, inclusive quanto aos tributos. Utilizar vendas totais quando há vendas à vista relevantes distorce o prazo de recebimento. Utilizar custo das vendas no lugar de compras pode distorcer o prazo de pagamento.

Exemplo hipotético: 75 dias de estoque + 50 dias de recebimento − 35 dias de pagamento = 90 dias de ciclo financeiro.

Reduzir esse ciclo exige ações sobre compras, produção, estoques, cobrança e condições comerciais.

Uma análise complementar utiliza:

NCG = ativos circulantes operacionais − passivos circulantes operacionais

Saldo de tesouraria = capital de giro líquido − NCG

Essa abordagem exige reclassificar contas operacionais e financeiras de forma consistente. NCG crescente pode indicar que o crescimento da operação está absorvendo mais recursos do que a empresa consegue financiar.

14.3 Rentabilidade, eficiência e dívida

Indicador

Fórmula básica

Interpretação e cuidado

ROA

Lucro líquido ÷ ativo total médio

Retorno contábil sobre os ativos; explicitar a convenção utilizada

ROE

Lucro líquido ÷ PL médio

Retorno ao acionista; pode aumentar com alavancagem

Giro do ativo

Receita líquida ÷ ativo total médio

Receita gerada por unidade de ativo

ROIC

Resultado operacional após tributos ÷ capital investido médio

Retorno sobre o capital empregado na operação

Dívida líquida/EBITDA

Dívida financeira líquida ÷ EBITDA

Relação entre dívida e geração operacional aproximada

Cobertura de juros

EBIT ÷ despesa de juros

Capacidade do resultado operacional de cobrir juros

Dívida líquida, EBITDA e capital investido precisam de definições explícitas, inclusive quanto a arrendamentos, caixa restrito e ajustes.

EBITDA não é fluxo de caixa. Não contempla integralmente capital de giro, investimentos, tributos e amortização da dívida.

Com EBITDA negativo ou muito baixo, dívida líquida/EBITDA pode deixar de oferecer uma interpretação útil.

A decomposição tradicional do ROE ajuda a investigar sua origem:

ROE = margem líquida × giro do ativo × multiplicador do patrimônio

Um retorno maior pode decorrer de margem, eficiência no uso dos ativos ou maior alavancagem. Esses caminhos possuem riscos diferentes.

Penman é uma referência importante para estudar a conexão entre indicadores, desempenho e avaliação empresarial. 


15. Exemplo integrado: a qualidade dos saldos muda o diagnóstico

Considere uma empresa hipotética, com valores em milhões de reais:

Conta

Antes dos ajustes

Após os ajustes

Caixa

2,0

2,0

Contas a receber

8,0

6,5

Estoques

10,0

8,0

Ativo circulante

20,0

16,5

Ativo não circulante

15,0

14,0

Ativo total

35,0

30,5

Passivo circulante

12,0

13,0

Passivo não circulante

8,0

8,0

Patrimônio líquido

15,0

9,5

Os ajustes representam perdas em recebíveis de R$ 1,5 milhão, redução de estoques de R$ 2 milhões, impairment de R$ 1 milhão e provisão circulante de R$ 1 milhão. Para fins didáticos, desconsideram-se efeitos tributários.

Indicador

Antes

Depois

Liquidez corrente

1,67

1,27

Liquidez seca

0,83

0,65

Capital de giro líquido

R$ 8,0 milhões

R$ 3,5 milhões

Endividamento geral

57,1%

68,9%

Os ajustes não exigem necessariamente desembolso imediato, mas revelam menor recuperação esperada de ativos e maior exposição a obrigações.

A situação econômica não começou a piorar no momento do lançamento contábil. O lançamento tornou essa situação mais visível.


16. Balanço, P&L e fluxo de caixa precisam conversar

Uma análise completa conecta as três demonstrações:

Movimento observado

Investigação necessária

Lucro cresce e caixa operacional cai

Recebíveis, estoques, pagamentos e efeitos sem caixa

Estoques crescem mais que vendas

Demanda, programação, obsolescência e custos

Recebíveis crescem mais que receita

Prazos, cobrança, disputas e qualidade das vendas

Dívida cresce com EBITDA estável

Capital de giro, investimentos e distribuições

Imobilizado cresce sem avanço operacional

Prazo de implantação e retorno dos projetos

PL cresce sem geração de caixa equivalente

Composição do resultado e demais movimentações

A recomendação é elaborar uma ponte mensal entre lucro e caixa, identificando onde os recursos foram gerados e onde foram consumidos.

Essa integração será também a base do aprofundamento sobre Budget e Forecast: o orçamento precisa projetar resultado, posição patrimonial e caixa de maneira coerente.


17. Notas explicativas, estimativas e próximos requisitos

As notas devem ser examinadas para compreender políticas contábeis, julgamentos, estimativas, garantias, vencimentos, contingências e exposições.

É útil estabelecer uma revisão mensal das contas relevantes com:

Saldo inicial + movimentações − baixas = saldo final

Cada saldo material precisa de composição, documentação, responsável e explicação das mudanças.

No horizonte normativo, a IFRS 18 substitui a IAS 1 para períodos anuais iniciados em ou após 1º de janeiro de 2027, com aplicação antecipada permitida. A transição exige atenção à apresentação e às divulgações; não significa mensurar todos os ativos a valor justo. 


Conclusão: interpretar o patrimônio para decidir melhor

O aprofundamento do balanço patrimonial deve esclarecer quanto dos ativos é recuperável, quando se transformará em caixa, quais obrigações precisam ser liquidadas e quanto capital a operação exige.

Para isso, o analista precisa combinar teoria contábil, normas, conhecimento da operação e julgamento gerencial.

Um índice bem calculado sobre saldos de baixa qualidade produz uma conclusão de baixa qualidade.

A contribuição da controladoria está em transformar essas informações em decisões: recuperar recebíveis, reduzir estoques, revisar investimentos, reconhecer riscos, ajustar financiamentos e preservar a capacidade de geração de resultados.

Referências bibliográficas e normativas

Base conceitual e leitura complementar

  • HENDRIKSEN, Eldon S.; VAN BREDA, Michael F. Teoria da contabilidade. Tradução de Antonio Zoratto Sanvicente. São Paulo: Atlas, 1999.
  • IUDÍCIBUS, Sérgio de; RIOS, Ricardo Pereira. Teoria da contabilidade. 13. ed. Atlas.
  • PENMAN, Stephen H. Financial Statement Analysis and Security Valuation. 5. ed. New York: McGraw-Hill/Irwin, 2013.
  • PENMAN, Stephen H. Financial Forecasting, Risk and Valuation: Accounting for the Future. Abacus, 2010. Publicação acadêmica⁠. 

Fontes normativas principais — IFRS Foundation / IASB

Norma

Tema

Conceptual Framework

Conceitos, reconhecimento e mensuração

IAS 2

Estoques

IAS 7

Demonstração dos fluxos de caixa

IAS 12

Tributos sobre o lucro

IAS 16

Imobilizado

IAS 36

Redução ao valor recuperável

IAS 37

Provisões e contingências

IAS 38

Intangíveis

IFRS 9

Instrumentos financeiros e perdas de crédito esperadas

IFRS 13

Mensuração do valor justo

IFRS 16

Arrendamentos

IFRS 18

Apresentação e divulgação das demonstrações financeiras

Consulta oficial: IFRS Accounting Standards⁠. No Brasil, a aplicação deve observar os pronunciamentos convergentes e os atos dos reguladores pertinentes.


Sua empresa acompanha apenas o resultado ou também a qualidade dos ativos e a estrutura de financiamento?

A Alpha Premium Consultoria e Treinamentos apoia a análise integrada de balanço, resultado, capital de giro e produtividade, conectando o diagnóstico financeiro às ações na operação.

Contato: ari@alphapremium.net | alphapremium.net⁠


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