Ética e Antiéticos: uma convivência silenciosa nas empresas
Há alguns anos assisti a uma apresentação sobre Ética ministrada por um professor de uma renomada universidade.
A apresentação era tecnicamente muito boa e abordava diversos conceitos presentes na excelente obra "Ética nas Empresas – Boas Intenções à Parte", de Laura Nash. No entanto, chamou-me a atenção um detalhe: em nenhum momento foi mencionado o livro ou sua autora.
Pode parecer um detalhe, mas não é.
Quando utilizamos conceitos, metodologias ou ideias desenvolvidas por outras pessoas, é uma obrigação intelectual e moral reconhecer a autoria. Dar crédito a quem produziu o conhecimento é um dos pilares da ética acadêmica e profissional.
É curioso perceber que, em uma apresentação sobre ética, justamente esse princípio tenha sido ignorado.
Em minhas palestras sobre o tema, procuro sempre identificar claramente as fontes utilizadas, pois acredito que integridade começa nos pequenos gestos.
"A ética é saber a diferença entre o que você tem o direito de fazer e o que é a coisa certa a fazer."
— Potter Stewart
Infelizmente, essa não foi a única situação que presenciei.
Durante minha atuação em uma grande multinacional, a matriz determinou que cada unidade implantasse um Código de Ética e nomeasse um coordenador regional para conduzir essa política. O fato curioso é que o profissional escolhido estava longe de representar um exemplo de comportamento ético.
Em outra oportunidade, enfrentei forte resistência ao defender uma decisão que beneficiava exclusivamente a empresa.
Um diretor insistia na contratação de um prestador de serviços de sua amizade, cujo preço era aproximadamente três vezes superior ao de outro fornecedor igualmente qualificado. Após uma análise técnica e financeira, optei pela proposta mais vantajosa para a organização. A decisão, embora correta sob todos os aspectos profissionais, gerou severas críticas.
Em uma consultoria, vivi outra experiência marcante.
O presidente da empresa fazia questão de permanecer ao lado do contador durante todo o fechamento contábil e somente deixava a sala quando os números refletiam o resultado que ele desejava apresentar.
Situações como essas mostram que, infelizmente, ética e interesses pessoais muitas vezes dividem o mesmo ambiente corporativo.
Como dizia Peter Drucker:
"A administração é fazer as coisas corretamente; liderança é fazer as coisas certas."
Fazer as coisas certas nem sempre é o caminho mais fácil. Muitas vezes significa contrariar interesses, enfrentar pressões e assumir posições impopulares.
Entretanto, é justamente nesses momentos que o caráter é colocado à prova.
A ética não se revela quando tudo está favorável. Ela se manifesta quando agir corretamente tem um custo.
Como ensinava W. Edwards Deming:
"Não existe substituto para a integridade."
Reflexão Final
As empresas investem milhões em tecnologia, processos e indicadores. Poucas, entretanto, conseguem construir uma cultura sólida baseada em ética e confiança.
Procedimentos podem ser escritos.
Normas podem ser impostas.
Controles podem ser implantados.
Mas caráter não pode ser terceirizado.
A verdadeira vantagem competitiva de uma organização começa pelas pessoas que escolhem fazer o certo, mesmo quando ninguém está olhando.
Ética não é um discurso. É uma decisão diária.
Professor Ari Lopes
Economista | Mestre em Contabilidade e Controladoria | Consultor em Gestão, Controladoria e Excelência Operacional
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